Permacultura e arte contemporânea são conceitos modernos

Entrevista com Louis Baguenault realizada por Antonio Sobral em Maio de 2016, num skype entre São Paulo e Paris.

Tradução e edição de Antonio Sobral.

Louis é jardineiro e Antonio é agricultor. Além de trabalhar com agroecologia, Louis e Antonio também são artistas. Louis participou da terceira edição do Programa de residências São João, organizada em 2013 por Flora Rebolo, Ruli Moretti, Daniel Jablonski e Antonio Sobral na fazenda São João em São José do Vale do Rio Preto, RJ.

“Parecia frágil, mas mexia na terra, o que lhe concedia uma força primórdia, ancestral. Não parecia ter medo dos bichos – e talvez fosse um bicho.”
 poema-retrato de Louis, Paloma Mecozzi


entrevista Louis

Antonio: Você deixou o seu trabalho artístico para se consagrar à jardinagem. Por quê?

Louis: Usava demais a cabeça. Eu queria deixar meu cérebro tranquilo para poder pensar no resto do corpo. O resto do corpo não gosta de pressão, de produção em série. (Na arte) você sempre tem que justificar o seu trabalho. Isso me estressava.

A: Você estava fazendo uma formação de jardineiro, que largou para entrar numa Escola de Belas Artes. O que te atraiu à criação artística?

L: O que ainda me atrai. É uma escapada, uma fuga.

A: Também sinto isto. Eu entro numa espécie de sublime interior. Decidi ser artista porque queria penetrar este vazio que me ausentava do que me cercava.

L: Concordo que é interessante, mas depois senti a necessidade de me reconectar comigo mesmo. Não estou bem.

A: Você tem algum problema grave?

L: Não, não é isso. É no plano da energia vital, dos nervos. Senti que meus nervos se fragilizaram após alguns anos de errância. A nível dos dentes. De verdade pelos dentes. É mais importante escovar os dentes, comer bem. Não é o cérebro. Eu realmente quero deixar meu cérebro tranquilo.

A: Seu campo de atuação como jardineiro é a permacultura, que pode ser resumidamente definida como a cultura da permanência, pela qual tudo é pensado sistemicamente, seguindo ciclos e padrões da natureza. Mas a arte contemporânea é essencialmente vinculada a um star system, uma grande farsa elitista fruto do enlace entre o mercado (galerias, feiras) e o universo institucional (museus, academias), que são seus legitimadores e financiadores. O “grande” circuito artístico priva a humanidade da experiência artística. Quando me convidaram a escrever para este zine, não conhecia as pessoas e ações incríveis que estão por trás do projeto. Fiquei com um pé atrás. Pensei: querem juntar arte e permacultura porque acham que são fofos, mas são universos alienígenas.

L: Não vejo porquê você acha que são contrários. Por quê? Talvez o sejam para você. Arte contemporânea e permacultura são conceitos guarda-chuva, onde tudo é reciclado, nada se perde. Onde se busca não fazer muita questão de uma boa ideia, já que ela se transforma em sistema e no fim o sistema não funciona.

   É bastante lógico. Os princípios da permacultura, ditados por Bill Mollison e David Holmgren nos anos 1970, são geniais. É um conceito ocidental moderno cujos princípios existem desde os primórdios. O princípio da lógica seja o que talvez te irrite. A lógica é o bom senso. A permacultura é a lógica do bom senso, é quase demasiado para o absurdo da arte. Mas não vejo problema entre arte contemporânea e permacultura. Justamente porque a permacultura é um conceito. A palavra “permacultura” está ligada ao conceito moderno criado pelo ocidente em relação aos seus problemas que encontram-se exacerbados neste momento.

  Quando falamos de arte, geralmente nos referimos à arte contemporânea, que é um tipo de arte: a arte de hoje, “oficial”, etc. O que não necessariamente se refere à arte em sua essência ou à arte primitiva. Mas arte e permacultura são realmente ligados, são duas palavras/conceitos ligados à mesma coisa.

A: Todos deviam desenhar, por exemplo, é uma expressão natural do homem, diretamente ligada ao seu rastro na terra. Penso na castração da vontade de desenhar.

L: Perdão, eu não quis dizer arte e permacultura, mas arte contemporânea e permacultura, estas duas palavras que podemos ligar ao ocidente. Se a palavra “ocidente” te incomoda podemos dizer “mundo moderno”. A permacultura, assim como a arte contemporânea, são termos da modernidade. Se quiser falar de arte num sentindo geral, precisamos encontrar um substituto à palavra permacultura, para falar do que diz a permacultura.

A: Seu único trabalho artístico que presenciei foi uma performance onde você apresentava seu trabalho através de um slideshow comentado, que era ao mesmo tempo uma busca do que poderia ser este trabalho sendo apresentado e um registro do processo criativo. Para isto vocȇ usava uma série de anedotas, fotografias, registros de esculturas, instalações e outros. Lembro da imagem do “zen garden” que você construiu com madeira e sal, e que no dia seguinte foi comido por vacas que invadiram o teu espaço de trabalho. Era engraçado porque a gente se perdia na história da apresentação deste trabalho, que ficava cada vez mais incompreensível. Em função da interação com o público, a apresentação podia retornar a uma imagem já projetada, e a experiência ia se tornando um labirinto imaginativo.

É interessante que o seu trabalho artístico se concentre na efemeridade da experiência sensível, enquanto o seu trabalho de jardineiro se concentra na permanência das coisas no tempo, coisas que são bastante concretas. Que relação vocȇ vȇ entre a experiência efȇmera da arte e a temporalidade alargadada do jardim? Afinal, sua arte acontece ao vivo.

L: Nos dois casos há uma prática que deve ser instaurada, até que se encontre o gesto a ser feito. Nos dois casos há um tempo curto e um tempo longo. Jardinagem é exaustivo, o corpo inteiro se mexe muito, você não para de gesticular. Visto de fora parece incoerente, vocȇ mexendo pra tudo que é lado pra desplantar uma planta. Há muita perda de energia também, como na prática artística. O jardineiro tem um trabalho físico com os elementos, com a terra, que é muito efȇmero, e ao mesmo tempo há um tempo longo com as plantas que crescem, com os dias que passam.

A: A realização de seu trabalho de jardineiro, independente dos tempos que se adicionam até se chegar a um resultado, está talvez na contemplação de um sistema vivo do qual fazemos parte. Poderíamos comparar essa sensação ao comer uma fruta. Mas uma fruta vocȇ vai comer todo ano, seu trabalho artístico não pode nem ser gravado. Vocȇ não acha?

L: Eu nem sei se quero continuar a ser jardineiro, me cansa muito. Na verdade é tão exaustivo quanto a arte. As frutas demoram a vir. E depende dos anos. Não é sempre que tem, precisa-se de uma série de frutas. Realmente vejo um paralelo com a arte, onde a prática demora à instaurar-se e a obra não é previsível: no fim do processo vocȇ não está onde achou que chegaria. Ou não era esta fruta que vocȇ esperava.

A: É verdade. O jardim é completamente louco e difícil.

L: Difícil? Não, se vocȇ se deixar levar acho que é bem fácil. É uma questão de prática. É claro que no começo é caótico.

A: Até vocȇ encontrar um ritmo.

L: Que vocȇ encontre o seu lugar ou não. Que vocȇ evolua ou não, que encontre o que realmente te interessa neste pandemônio.

A: É verdade. Isto que vocȇ disse me faz lembrar de uma frase que escrevi para esta entrevista: a ambiguidade da essência da arte é também a ambiguidade da natureza, jamais tocamos os seus limites. Não se pode entendȇ-las sistemicamente pois ambas estão em constante reação. Podemos também afirmar que as duas brincam com as aparências para alcançar seus objetivos, encontra-se em ambas a apatia, a sensualidade, a morbidez…

Para esta performance de “apresentação” mencionada acima, que você mostrou na Residência São João e depois num festival em Marselha, vocȇ incorporou materiais e situações espontâneas que viveu durante a residȇncia. Conte-nos um pouco sobre como vocȇ abordou a matéria, os materiais, durante a residência.

L: Que pergunta simples! Entendo-a e me sinto valorizado. Risos.

A gente sempre traz consigo uma relação pré-estabelecida com a matéria. Eu tinha uma relação com o sal e o café por exemplo. Eu tinha tido uma experiȇncia, da qual tirei conclusões e estabeleci crenças. Tinha uma ideia pré-concebida. Digamos que eu tinha três elementos na cabeça e na mala quando cheguei à residencia. E que lá houve o encontro com as vacas e o cafezal. Fiz um vídeo com a Flora Rebolo e o Dacio Pinheiro a respeito. Relacionei este vídeo com o café cru pois eu também tinha uma experiȇncia do cru, tinha toda uma teoria sobre a relação da cozinha crudista com a energia. Houve matérias que encontraram ecos nos lugares e mesmo nas pessoas: Flora e o café andavam juntas.

A: Ela te irritava?

L: Não, não me irritava! Mas eu teria gostado.

A: Você “teria gostado”?! Oh-lala!

L: Não! Eu teria gostado que ela me irritasse. A Flora também é uma matéria.

Depois do café tem o sal com as vacas. Eu tinha a minha história com a carne e com o veganismo, daí vi as vacas comerem sal. As vacas são atiradas pelo sal, com frequência se dá sal aos animais. Então estas coisas da ordem do “não se deve comer sal, não se deve beber café”, é que nem um vudu. São preceitos que se transformam com as pessoas, com a mudança de contexto, e no fim das contas o discurso moralizador – e até a dietética, partem em debandada e se personalizam numa história, tomam corpo em outra história. Você chega com uma bagagem e depois você a abre, uma bagagem que você arrasta faz tempo, mas que você recebeu ou que talvez lhe foi imposta. Vocȇ abre e ela está em outro lugar, onde diz outra coisa. A “bagagem” que trazemos transforma-se pelo intermédio das matérias, que são veículos. É realmente a única coisa que eu gosto em arte.

A: A relação com os materiais?

L: A relação com os materiais através das histórias. O fato de que através dos materiais você pode transformar as histórias e até as tuas próprias crenças, ou o que te foi imposto.

A: É uma outra relação com o símbolo, ele não é fixo. Você pode brincar com ele.

L: Você chega com uma certa quantidade de objetos na cabeça, no seu corpo e na sua experiência, e simplesmente pela ação essas coisas se transformam. Elas mudam de forma.

A: O que vocȇ diz se aproxima da ideia que buscamos para a residência, de uma residência experimental.

L: Total. Então, o que eu gostava era a relação com os objetos. O fato de apresentar era mais pro embaraçoso. Me interessa mais a discussão, como a que travamos agora, do que esta forma de apresentação que virava um instante criativo quando as pessoas reagiam. Acho que o melhor seria fazer um relatório de acontecimentos. É embaraçoso criar ao vivo na frente das pessoas. É chato. Não é muito natural. Se não há nada de natural nisto é difícil dizer, mas é melhor criar, foi demais quando estávamos no cafezal e fizemos este vídeo com a Flora e o Dácio. Mesmo com uma certa pressão de “o que vamos fazer?”, a gente encontrou.

A: Temos que desconfiar do hedonismo. Do “o mais legal é o que mais gostamos”. Não é só isso.

L: Ah, sim! Sim, sim, sim.


Os 12 princípios de design da Permacultura articulados por David Holmgren em seu livro “Permacultura Princípios e caminhos além da sustentabilidade”:

Observe e interaja: Alocando tempo para engajar-nos com a natureza, podemos desenhar soluções adequadas à nossa situação particular.

Capte e armazene energia: Desenvolvendo sistemas que coletem recursos que estejam no pico de abundância, podemos utilizá-los quando houver necessidade.

Obtenha rendimento: Assegure-se de que esteja obtendo recompensas verdadeiramente úteis como parte do trabalho que você está fazendo.

Pratique auto-regulação e aceite feedback: Precisamos desencorajar atividades inapropriadas para garantir que os sistemas continuem funcionando bem.

Utilize e valorize recursos e serviços renováveis: Faça o melhor uso da abundância da natureza para reduzir nosso comportamento consumista e nossa dependência de recursos não-renováveis.

Evite o desperdício: Valorizando e fazendo uso de todos os recursos que estão disponíveis para nós, nada será desperdiçado.

Projete dos padrões aos detalhes: Dando um passo atrás, podemos observar padrões na natureza e na sociedade. Estes padrões podem formar a espinha dorsal de nossos projetos, com os detalhes sendo preenchidos conforme avançamos.

Integrar ao invés de segregar: Colocando as coisas certas no local certo, fazemos com que as relações entre uma e outra se desenvolvam e elas passam a trabalhar juntas para ajudar uma à outra.

Utilize soluções pequenas e lentas: Sistemas pequenos e lentos são mais fáceis de manter do que sistemas grandes, fazendo uso mais adequado de recursos locais e produzindo resultados mais sustentáveis.

Utilize e valorize a diversidade: A diversidade reduz a vulnerabilidade à uma variedade de ameaças e tira vantagem da natureza única do ambiente na qual reside.

Utilize bordas e valorize elementos marginais: A interface entre as coisas é onde os eventos mais interessantes ocorrem. É onde frequentemente estão os elementos mais valiosos, diversificados e produtivos de um sistema.

12 Utilize e responda criativamente às mudanças: Podemos ter um impacto positivo nas mudanças inevitáveis se as observarmos com atenção e intervirmos no momento certo.